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Arnis, Kali, Eskrima: três nomes, uma essência

Essa arte marcial tradicional das Filipinas é muito mais do que uma técnica de combate — é um legado cultural, uma expressão de identidade e uma ferramenta poderosa de transformação pessoal.

A origem do nome Arnis remonta ao termo espanhol “arnés”, que significa armadura. Nas peças teatrais filipinas conhecidas como moro-moro, que encenavam batalhas entre cristãos e mouros, os atores usavam trajes inspirados em armaduras europeias. Com o tempo, o termo passou a designar também a arte marcial representada nessas encenações.

Eskrima deriva diretamente de “esgrima”, e sua grafia foi influenciada por movimentos nacionalistas como o de José Rizal, que defendia a substituição das letras c e q pela letra k, mais alinhada à fonologia filipina. Kali, por sua vez, foi resgatado no século XX como uma tentativa de reconectar a prática a uma identidade pré-colonial, embora não haja registros históricos sólidos que comprovem seu uso original como nome da arte marcial.

A partir do século XVIII, especialmente após a invasão britânica de Manila em 1762, os filipinos começaram a integrar as forças militares coloniais, contribuindo com milícias, soldados e especialistas náuticos. No século XIX, com o fim dos reforços vindos do México, passaram a compor a espinha dorsal das forças de segurança locais, como os Cuadrilleros, Carabineros e a Guardia Civil.

No final do século XIX, a Revolução Filipina e a Guerra Hispano-Americana marcaram a luta pela independência. Apesar da vitória contra a Espanha, o arquipélago foi entregue aos Estados Unidos, frustrando os revolucionários que haviam proclamado a Primeira República Filipina. Ainda assim, o espírito de resistência permaneceu vivo, e o Arnis seguiu sendo praticado e transmitido de geração em geração.

Na década de 1920, surgiram as primeiras escolas formais de artes marciais filipinas. Em Cebu, o Labangon Fencing Club promoveu o intercâmbio de técnicas entre praticantes. Em 1932, o clube foi reorganizado como Doce Pares Club, liderado pelas famílias Saavedra e Cañete. Um de seus membros fundadores, Venacio “Anciong” Bacon, mais tarde fundaria o estilo Balintawak Eskrima, ensinando em um espaço modesto nos fundos de uma relojoaria. Esses momentos marcaram o nascimento das linhagens modernas do Arnis, com estilos, filosofias e métodos próprios.

Remy Amador Presas, fundador do Modern Arnis, nasceu em Negros e teve formação marcial desde a infância, influenciado por seu pai e avô durante a ocupação japonesa. Treinou com mestres como Timoteo Maranga e Venancio “Anciong” Bacon, além de estudar com os irmãos Cañete do grupo Doce Pares. Faixa-preta em Karatê, buscou incorporar os ensinamentos da arte marcial japonesa ao Arnis filipino, criando um sistema estruturado com níveis, faixas e uma pedagogia moderna — sempre zelando pela integridade física do praticante. Posteriormente, levou o Arnis para o Japão, Estados Unidos e outros países, atuando como embaixador cultural das Filipinas. Nos Estados Unidos, tornou-se próximo do grande mestre Wally Jay, criador do Small Circle Jujitsu, incorporando influências dessa escola ao currículo do Modern Arnis.

Em 2009, o Arnis foi oficialmente reconhecido como esporte nacional filipino pela Republic Act 9850. A lei reconhece que Arnis, Eskrima, Kali, Garrote e outros nomes regionais como Pananandata, Pagkalikali, Kaliradman e Didja são expressões da mesma arte. Ela descreve o Arnis como uma prática baseada em movimentos de balanço e rotação, com técnicas de golpe, estocada e defesa, utilizando um ou dois bastões, facas ou até mesmo o corpo como arma. É uma arte marcial que se adapta, evolui e se molda ao praticante.

Curiosamente, essa lei foi sancionada pouco depois da visita da então presidente Gloria Macapagal Arroyo ao Brasil, onde recebeu uma carta do Grão Mestre Dada Inocalla pedindo apoio à promoção do Arnis. Coincidência ou não, o impacto foi imediato.

Treinar Arnis é mais do que aprender a se defender. É mergulhar em uma história de resistência, disciplina e superação. É desenvolver coordenação, foco e confiança. É fazer parte de uma tradição viva, que conecta passado e presente em cada movimento. Se você busca uma arte marcial completa, com alma, propósito e aplicação real, o Arnis está esperando por você.